1 de agosto de 2012

X-10: Dez animes e animais



Patos irritadiços, cachorros atrapalhados, ratos inteligentes, pica-paus bagunceiros, coelhos espertinhos; desenhos com animais como protagonistas são todos infantis e inofensivos, isso é fato.


Ou pelo menos era na infância, embebida em Hanna Barbera, Warner e Disney.

Pintinhos barbudos, coelhos soldados, gatos vampiros... O Japão nos traz as ideias mais ousadas envolvendo as criaturas mais dóceis, e não raramente mesclando o politicamente incorreto com um visual, à primeira vista, inócuo e pueril. Tendo todos animais como destaque, a lista desse mês pode possuir um bom número de animes direcionados ao público infantil; porém, estes dividem espaço com obras de conteúdo mais bem elaborado e adulto. Seja com a perversão da hamster de “Oruchuban Ebichu”, os instintos assassinos do gato de “Cat Soup” ou a atmosfera madura do café do urso de “Shirokuma Cafe”, estas produções nos ensinam que animais, não importando a espécie, podem, sim, protagonizarem animações não voltadas às crianças.



O requisito usado para escolher os títulos foi de que cada um deveria ter, pelo menos, um animal no papel principal, independente se há humanos no elenco ou não.


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Buta (Special)








De onde saiu: Foi uma das quatro animações a receber incentivo financeiro do “2011 Young Animator Training Project”.

A história: O pai de uma pequena raposa promete dar ao filho em seu próximo aniversário um misterioso mapa, considerado o maior tesouro da família e passado de geração em geração. Mas, antes que isso aconteça, surgem piratas que levam embora o mapa e sequestram a raposinha.

Espécime animal: Variados, mas os protagonistas são uma raposa criança e um porco mercenário. O primeiro é inútil, mas o segundo sabe lutar muito bem.

Nos vinte e quatro minutos desse especial acompanhamos uma pequena aventura abrangendo diversos tipos de animais, de raposas e porcos a guaxinins e cachorros. Divertido, agradável e às vezes engraçadinho, “Buta” usa com competência e agilidade o pouco tempo que tem, e seu enredo tão básico, bobinho e previsível de mapas do tesouro e piratas só se torna encantador por conta, justamente, do fato de vermos animais antropomorfizados ao invés de humanos.

Como episódio único, o resultado é mais do que satisfatório – sem falar do bonito e colorido visual, caso lembremos que novatos, com um vultoso suporte, estão por trás disso -, e a animação causará unicamente, talvez, certa decepção em alguns no seu final por largar no ar a impressão de que mais aventuras virão no futuro – o que, até agora, não foi confirmado, e possivelmente nem será.

2011 Young Animator Training Project: os outros curtas financiados nesse ano foram “Wasurenagumo”, “Puka Puka Juju” e “Shiranpuri”.



Cat Shit One (ONA)








De onde saiu: Mangá, 3 volumes, em andamento.

A história: Dois soldados tentam resgatar reféns civis das mãos de terroristas vietnamitas.

Espécime animal: Coelhos soldados contra camelos terroristas.

Simultaneamente um chamariz e um motivo para afastar eventuais espectadores, “Cat Shit One” surpreende por transpor animais para um ambiente hostil e tenso, sendo que isso ganha contornos mais graves com a ajuda da muito bem feita animação em 3D CG. É visível seu esforço para ser levado a sério; mas, não importa o que faça, ainda são coelhos e camelos empunhando armas, “detalhe” que o faz ser involuntariamente cômico em certos momentos.

Escondidos, o corajoso sargento Botasky e o não tão bravo sniper Perkins aguardam por reforços para poderem assaltar a base dos terroristas: mas, descobrindo que eles demorarão a chegar, e vendo que os reféns correm perigo, o destemido sargento ignora as ordens superiores e decide, ao lado de seu parceiro, salvar os civis. A partir desse ponto seguem-se cenas com muita ação e tiroteio, onde um coelho se mostra um perito no que faz ao superar facilmente a desvantagem numérica – se bem que camelos são meio lentos, né.

A música de fundo típica de um filme de guerra, as frases de efeito ditas no calor da batalha, a superação, as tomadas em câmera lenta, a hierarquia sendo esquecida em meio ao companheirismo... Se fossem humanos, tudo isso resultaria, de fato, em algo pretensiosamente denso; mas coelhos dando facadas e “headshots” em camelos e fazendo tudo com extrema seriedade – o que é lógico, porque vidas estão em jogo ali – acabam diluindo qualquer chance disso acontecer. “Cat Shit One” é estranhamente atrativo por essa discrepância entre elementos e personagens, e, se no início desdenhamos e – em alguns casos – temos um mal pré-julgamento dessa animação, aqueles que derem de ombros para tal cenário inusitado conseguirão acompanhar todo o episódio sem tanto enfado ou descrença (mas vale ressaltar que sua trama padece do mesmo mal que toda história de guerra, a monotonia resultante da repetição).

Mesmo porque, igual a “Buta” e outros títulos presentes mais a frente nessa matéria, ter animais no lugar de homens é o que faz uma historinha comum e clichê se destacar e ser melhor.



Cat Soup (OVA)








De onde saiu: Mangá, 3 volumes, finalizado.

A história: Ao tentar limpar um carrinho na banheira, um gatinho começa a se afogar e seu espírito sai de seu corpo, perambulando pela casa. Nesse estado ele percebe um ser azul levar embora a sua irmã, que se encontrava à beira da morte deitada em um colchão. Indo atrás dos dois e tentando resgatar o que na verdade é a alma dela, esta na confusão acaba se repartindo em duas, ficando o gatinho com apenas uma parte, e a criatura azul lhe avisa que ele terá de procurar por uma flor laranja para fazer a irmã voltar ao normal.

Salvo do afogamento pelo pai, o gatinho coloca a metade que sobrou da alma na irmã, que fica em estado vegetativo. Agora, ao lado dela, os dois partirão em uma viagem fantástica em busca da flor laranja.

Espécime animal: Um gatinho mudo com fortes tendências psicopatas.

Mesmo com uma sinopse relativamente grande se comparada aos dos outros animes daqui, “Cat Soup” carrega um enredo que pode ser entendido sem ler nada. Nem ouvir, inclusive, pois nos trinta minutos desse OVA mal há diálogos, e os poucos que aparecem não são necessários para se compreender alguma coisa. A viagem que esses dois gatos traçam pode lhe impregnar com diversas dúvidas, mas o vital é facilmente decifrado: um gatinho tentando salvar sua irmã.

Partindo de um perturbador show de mágica em um circo, “Cat Soup” nos presenteia com sequências surreais e fabulosas, e muitas possuem temas ocultos e filosóficos nas entrelinhas que, para quem estiver disposto, serão tópicos para várias interpretações. Entretanto, esse OVA pode ser desfrutado em igual medida mesmo por aqueles que não tentarem entender nada do que ocorre, se deliciando apenas com a criativa e inimaginável jornada dos protagonistas à procura de uma flor.

“Cat Soup” tem um humor levemente negro e altamente sarcástico, e seu personagem principal, ao contrário do que parece, não é nada ingênuo nem inofensivo. Ademais, em meio a formas de vida extraordinárias e adversidades de proporções colossais, onde sequer um possível Deus é esquecido, testemunhamos uma animação de arte singular e excelente qualidade técnica, mesclada a uma trilha sonora de toques excêntricos e originais. Instigante e prazerosamente bizarro, tal OVA acaba se transformando mais em pura arte do que em um trabalho passível de qualquer crítica profunda, visto que um fiapo de argumento só foi um mero motivo para seus criadores soltarem totalmente a imaginação.

Versão alternativa: o OVA de 2001 é precedido pela série de TV de 1999, intitulada “Nekojiru Gekijou”, composta por vinte e sete episódios de um minuto cada. Ela já contém diálogos e segue um estilo “slice of life”, narrando a rotina da família, principalmente a dos irmãos.

Aqui descobrimos que o gatinho se chama Nyako e sua irmã, Nyatta - esta uma gatinha arruaceira, mal educada e violenta, mostrando-se assim uma desastrosa influência para o irmão, que mal sabe falar ainda. Com traços pobres, sem fundo musical e abusando de piadas escatológicas, o anime é muito inferior ao OVA em praticamente todos os quesitos, e não há necessidade de ver um para assistir o outro.

Masaaki Yuasa: responsável pelo enredo de “Cat Soup”, ele dirigiu os não menos extravagantes – e bons - “Kaiba”, “Kemonozume” e “Yojouhan Shinwa Taikei” – este último foi citado na matéria “Dez animes do noitaminA”.



Chi’s Sweet Home








De onde saiu: Mangá, 8 volumes, em andamento.

A história: Uma gatinha perdida. Chi se separa de sua família durante um passeio com eles, e nisso acaba conhecendo um garotinho chamado Youhei e sua mãe, que a encontram num parque. Apesar de morarem em um complexo de apartamentos onde animais não são permitidos, a família Yamada decide ficar com essa gatinha até acharem um lar para ela. E assim Chi vivenciará novas experiências em sua vida.

Espécime animal: Uma gatinha filhote comum. Recomenda-se não deixa-la em companhia dos outros animais citados nessa matéria, para evitar más influências.

Em meio a hamsters boca suja, criaturas antropomorfizadas, pintinhos barbudos que adoram beber e gatos mortos-vivos, a fofíssima Chi é, sem titubear, a animal mais normal dessa lista. Ela não fala e nem deseja sangue ou uma garrafa de saquê: quer apenas brincar, comer e dormir.

Comportando-se que nem uma criança, a tolinha protagonista desse anime pouco sabe do mundo que a cerca, e o convívio ao lado de uma família inexperiente com animais a fará passar por inúmeras situações nunca antes presenciadas na sua curta vidinha, que a ensinarão muitas coisas novas - mesmo que às vezes esse aprendizado não seja lá tão correto. O que é um cachorro? Chi não saberia explicar, mas tem noção de que é algo grande, barulhento e do qual se deve manter distância sempre! - é o suficiente.

Ir a um lugar “terrível” onde aplicam em suas costas alguma agulha afiada e dolorosa, se indagar e ficar emburrada com o fato de não poder brincar e comer o dia inteiro, não entender a razão de seus donos ficarem tão irritados ao verem-na aparar suas unhas no sofá... Torna-se uma graça acompanhar os pensamentos inocentes de Chi a respeito desses e outros diversos fatos, e sua fofura só aumenta com a boa dublagem de Koorogi Satomi, seiyuu experiente em papéis de crianças e animais - tais como o chatinho Togepi de "Pokemon", a coitada Menchi de "Excel Saga" e a bebê Himawari de "Crayon Shin-chan". Ao mesmo tempo, vemos a pobre família Yamada parecendo pais de primeira viagem, exagerando no tratamento dado ao novo integrante da família, e ficando aflitos com banalidades como pelos espalhados pela casa e o medo de deixa-la sozinha enquanto saem, além de tomarem cuidados extremos para que seu animalzinho não seja visto pelos vizinhos, ou, pior, pela síndica do prédio - a vilã da história!

Usando mão de um realismo e sensibilidade pouco explorados em animes que tem animais no papel principal, “Chi’s Sweet Home” termina por se transformar num caloroso, familiar e bem humorado “slice-of-life” de uma felina filhotinha, ao exibir prazerosas histórias que passam uma sensação de bem estar ao final de seus curtos episódios – que possuem três minutos de duração cada. Por ser uma série longa (cento e quatro capítulos), a escassez de ideias se faz sensível, e a qualidade inevitavelmente cai conforme percebemos que os acontecimentos vão ficando cada vez mais absurdos e irreais – para se ter uma noção, você brinca de esconde-esconde com seu gato? -, um evidente contraste com o conteúdo tão próximo do banal visto no início. Mas, quem chegar a esse ponto certamente não se importará tanto para tal mudança, pois a esperteza crescente de Chi e suas adoráveis e cômicas trapalhadas nos fazem fechar os olhos para esses pequenos excessos.

Continuação: com mais 104 episódios, “Chi’s New Address” foi exibido em 2009, um ano após a primeira temporada.



Higepiyo








De onde saiu: Mangá, 1 volume, finalizado.

A história: É narrado o dia a dia de Haneda Hiroshi e sua família com Higepiyo, um estranho pintinho barbudo comprado durante um festival tradicional.

Espécime animal: Um pintinho que tem barba e cujos princípios éticos se assemelham ao de um respeitável senhor de idade. Eficiente guarda costas contra valentões da escola.

Apesar do personagem que dá nome ao anime não possuir uma aparência muito amigável, “Higepiyo” se mostra uma série de humor bastante familiar e livre de censuras; mas, diferente de “Chi’s Sweet Home”, seu conteúdo não consegue alcançar uma audiência mais variada.

Produzido em 2009, a animação singela do anime e sua historinha são nostálgicas; basicamente, Hiroshi e seu bichinho de estimação incomum têm como “inimigos” um mimado e riquinho valentão da escola de cabeça raspada e seus dois seguidores bajuladores, que tentam a todo instante pegar Higepiyo para si ou fazer alguma maldade a ele com planos discutíveis – e que custam muito dinheiro, claro. Junto a isso, há o convívio da família Haneda, numa casa onde um pintinho falante e de barba é rapidamente aceito sem tantas indagações – na verdade, todos os personagens do anime não demoram a achar isso absolutamente normal, e alguns inclusive o consideram “bonitinho”...

Se no início a família de Hiroshi conhece um Higepiyo entediado que parece não crer mais na vida – vá saber pelo que ele passou -, com o decorrer dos episódios sua personalidade muda e ele se torna mais amigável e menos ranzinza, se afeiçoando aos seus donos e revelando-se um pintinho de preceitos elevados, dignos de um grande samurai de dez centímetros de altura. Leal aos amigos, protetor dos oprimidos e amante de saquê, yakisoba e todo tipo de comida, Higepiyo estrela uma animação simpática e amena, que, tendo em mente seu público alvo, mostra como único defeito significativo a repetição de suas historinhas – em especial as que envolvem o garoto riquinho e seus fracassos constantes. Porém, estes vão perdendo espaço conforme o anime avança, passando a focar por maior tempo na vida dos Haneda.

Se já foi duas, que vá três logo: Romi Paku – seiyuu que citei brevemente nas duas listas anteriores, “Dez animes no mundo da música” e “Dez animes com Fukuyama Jun” – é quem dubla Higepiyo, dando-lhe uma voz rouca sem soar forçada. Sim, gosto dessa seiyuu, e um dia ainda farei uma matéria sobre ela.



Meitantei Holmes








De onde saiu: Adaptação livre da série de contos “Sherlock Holmes” de Arthur Conan Doyle.

A história: Aqui, o famoso detetive britânico e os personagens à sua volta são transformados em cães. Resolvendo casos ao lado de seu fiel assistente Watson, o culpado por trás de diversos crimes é quase sempre o Professor Moriarty, o maior inimigo de Sherlock na série de contos.

Espécime animal: Cachorros, muitos cachorros, de detetives e policiais a criminosos galantes com subalternos idiotas.

Em meio a tantos gatos, “Meitantei Holmes” é o único anime daqui que tem um cão como representante: entretanto, ele não é um vira-lata pulguento qualquer, e sim Sherlock Holmes, o morador do endereço mais famoso de Londres, a Rua Baker Street 221B.

Que nem em “Buta” e “Cat Shit One”, “Meitantei Holmes” pode ser melhor apreciado graças à ótima sacada que tem ao colocar animais antropomorfizados no lugar de humanos. Baseado numa obra exaustivamente adaptada para outras mídias, essa opção faz as aventuras do detetive ganharem um ar de renovação, e, além disso, nos impele a ficarmos menos exigentes quanto à construção do enredo e seus casos, o oposto a outros animes do gênero de maior popularidade, como os clássicos “Lupin III” e “Detective Conan”.

Mas, mesmo convencionais, as tramas da série guardam boas surpresas típicas de histórias policiais clássicas, que são narradas de modo episódico e linear. O esforço do detetive particular em inocentar o suspeito óbvio injustamente acusado pela polícia, o roubo de um artefato valioso durante um evento, cartas com mensagens ocultas, policiais sendo retratados de maneira caricata e incompetente... E nisso, um Sherlock mais impetuoso e ativo que o original, um Watson imensamente leal - como um bom cachorro que é -, e um inspetor Lestrade eternamente obtuso, mas diligente e honesto. Para uma história de mistério, “Meitantei Holmes” apresenta uma substância considerável, talvez precária se o cenário fosse outro, porém mais que suficientemente boa e atraente na sua situação.

Despretensioso, o atributo principal da série é, simplesmente, esse de seguir um roteiro enxuto, sem inventar muito no meio do caminho. Sabemos que o culto Moriarty e seus capangas estão por trás de mais um novo crime que agita a cidade; temos ideia de que Sherlock resolverá tudo ao mesmo tempo em que Lestrade e seus oficiais andam pelo caminho errado; estamos cientes de que, no final, Moriarty estará escapando com o rabo entre as pernas – literalmente! – após ver seu plano fracassar; e, até, não criamos esperanças de que Watson, um dia, vá criar coragem para se declarar à empregada de Sherlock, a senhora Hudson. A previsibilidade é gigante, abissal, mas seu desenvolvimento sucinto, aventureiro e sedutor, sem esquecer sua já mencionada escolha em por animais no meio disso tudo, o tornam, em termos gerais, divertido e aprazível de se ver.

Afinal, de orelhas pontudas ou não, continua sendo Sherlock Holmes.

Visão parcial: devido à dificuldade em achar os episódios, o autor desse texto viu por ora somente sete dos vinte e seis capítulos de “Meitantei Holmes” – e pessimamente dublados em italiano, para variar. Logo, uso isso como desculpa pela falta de condições para fazer um comentário mais esmiuçado.



Nyanpire The Animation








De onde saiu: Baseado no doujinshi “The Gothic World of Nyanpire”.

A história: Abandonado e à beira da morte, Nyanpire é salvo por um vampiro, que lhe dá sangue para beber. Após isso, ele passa a levar uma vida de gato aparentemente normal com Misaki, sua nova dona.

Espécime animal: Gato vampiro; cuidado com o que deixa perto dele, pois bebe tudo o que for vermelho. Por ser resistente e não morrer, é ideal para crianças que maltratam animais.

Após dois anos longe da indústria de animação o estúdio GONZO voltou em 2011 com um anime que carrega uma ideia um tanto, digamos, diferente: o dia a dia de um gatinho vampiro adorador de alho (?) e sangue, que tem como amigos um gato samurai e um gato anjo pilantra. Para uma empresa que no seu currículo consta “NHK ni Youkoso!”, “Chrono Crusade” e “Gankutsuou”, dentre outros, o retorno realmente não foi dos mais grandiosos. E vale lembrar que logo depois disso vieram com “Last Exile: Ginyoku no Fam” - querem falir de novo, ao que parece...

Que eu não seja mal compreendido; não quis dizer que “Nyanpire The Animation” é ruim, apenas que, nesse caso, ele não era a melhor opção. Mas como a GONZO já tomou decisões bem piores, voltemos ao anime em si.

Anime do qual nem se tem muito a falar, sendo direto. Possuidor de um humor bruto, apagado e carente de criatividade, a animação tem como único ponto forte seus personagens bonitinhos e alguns poucos momentos afáveis e suaves. Nyanpire não é nenhuma Chi, porém sua infantilidade e inocência a tornam fofa, e alguns dos demais personagens também alcançam certa graça, como o azarado gato samurai. Destaca-se ainda a sequência de encerramento, um animado clip live-action de um minuto e meio de duração que ocupa boa parte dos episódios, que não passam de cinco minutos.

Das séries de TV citadas nessa lista “Nyanpire The Animation” é, sem dúvida, a mais fraca. No geral, poderá agradar somente aqueles que estiverem procurando por algo de visual kawaii, já que o anime dá muito ênfase em circunstâncias que exploram isso - ignorando, seja por vontade própria ou não, quaisquer outros caminhos que seu enredo curioso poderia seguir.



Oruchuban Ebichu








De onde saiu: Mangá, 15 volumes, em andamento.

A história: É acompanhado o dia a dia de Ebichu, um animal de estimação que se esforça para fazer sua dona – namorada de um homem infiel - feliz, mesmo que, com frequência, seus atos bem intencionados tenham consequências violentas e dolorosas – para ela, obviamente.

Espécime animal: Hamster desbocada e tagarela, fã de sorvete e queijo camembert. Recomenda-se não receber visitas com ela por perto. Pagando nada mais que 800 ienes na sua compra, você terá uma ótima empregada – escrava – doméstica em tempo integral.

As aparências enganam, e não se deixem levar por esses olhinhos brilhantes e ar puro; se o honrado Higepiyo não é o que parece, o mesmo vale para a tapada Ebichu – de comum entre esses dois, somente a sua criadora, a mangaká Itou Risa.

“Oruchuban Ebichu” é, de longe, o título mais pesado, vulgar e obsceno dessa lista; mas, na mesma medida, ele é certamente - também de longe - o mais engraçado. Com muitos diálogos sobre sexo e cenas praticamente explícitas, esse anime sofreu para achar um estúdio que aceitasse animá-lo, visto que o visual inofensivo escondia um teor amplamente adulto. No final, a GAINAX (sabem, este estúdio já fez muitos trabalhos bons, num passado distante) foi a responsável em levar essa hamster e sua falta de bom senso para a TV. Aqui a aposta foi bem sucedida; pena que seus últimos passos tenham sido imensamente tortos - “Dantalian no Shoka” e “Medaka Box”, por exemplo...

Ah, Ebichu lava a roupa do imprestável namorado de sua mestra (como carinhosamente chama sua dona), e de repente acha uma marca de batom exatamente naquele lugar: ela tenta esconder, mas fala para a Mestra “sem querer” e pronto, ocorre nova briga do casal – que termina em sexo, quase sempre. Ebichu comeu o que não deveria, falou o que não podia, fez algo errado? Um soco, um chute, um lançamento de hamster em direção à parede mais próxima, e como resultado muito sangue e calos na cabeça. Assim se resume a série. Esse inconveniente e atrapalhado animalzinho dificulta ainda mais a vida de sua dona, uma mulher miserável de vinte e cinco anos solteira – algo condenável no Japão – e cujo namorado é um vagabundo mulherengo. São tantas pancadas, são tantas lesões, hematomas e maus tratos, que de quando em quando até sentimos pena de Ebichu, mesmo que muitas vezes ela faz por merecer – revelar aos berros com sua vozinha esganiçada segredos da vida sexual da Mestra, em pleno supermercado lotado? Bem, nem tem como ficar do seu lado, nesse caso.

O defeito da série não se encontra nos traços toscos e grosseiros, como pode parecer, mas justamente nas suas piadas – ou na sua piada, porque tudo ronda sexo e sexo. Mal entendidos da Ebichu, Ebichu e seu vocabulário indecente, as traições e desculpas do namorado da Mestra, Ebichu apanhando por qualquer coisa... “Oruchuban” recicla seu humor constantemente, e em certas ocasiões faz isso a intervalos bem breves. Em todo episódio Ebichu, em dado momento, será vista com calos ou estatelada no chão sangrando, por exemplo: mas em alguns capítulos isso é testemunhado pelo menos umas cinco vezes. Aquilo que causa risos no começo, invariavelmente, cansa após um tempo, e raramente surge uma situação nova – pelo menos, esse defeito pode ser suavizado, se a série for vista aos poucos.

Burrinha, tarada, esfomeada e heroína nas horas vagas – a sábia Ebichuman, conselheira sexual daqueles que tem problemas na cama! – “Oruchuban Ebichu” é grotescamente cômico e sujo, e Ebichu, apesar de tudo, possui um pouco de fofura, bastante até. Pena – ou não - que essa fofura some assim que ela abre a boca...

Itou Risa: “Higepiyo” e “Oruchuban Ebichu” foram seus únicos trabalhos a serem animados; mas, além de pintinhos e hamsters, Itou não fugiu á regra e também criou um mangá com felinos, o “One Woman, Two Cats”. Por fim, sua carreira como mangaká se resume às obras “A Woman’s Window” e “Hey Pitan!” – este último lhe rendeu o prêmio “Kodansha Manga Award” de 2005 na categoria shoujo.



Poyopoyo Kansatsu Nikki








De onde saiu: Mangá, 10 volumes, em andamento.

A história: Moe Sato é uma jovem mulher que encontra um gato na rua e passa a cuidar dele. Chamado de Poyo devido à sua forma redonda, ele rapidamente se torna querido por todos os membros da família Sato.

Espécime animal: Um gato redondo e desengonçado (não é uma almofada, muito menos bichinho de pelúcia). Você desenha um círculo – não se esqueça do círculo - e pronto, gato feito.

Voltado ao público seinen, o anime do último felino integrante dessa lista se encontra no meio termo em relação às demais obras com gatinhos: alguns elementos o impedem de ser tão infantil e ingênuo quanto as animações de Chi e Nyanpire, contudo sua leveza e clima despreocupado o afastam e muito de um inquietante “Cat Soup”.

Em curtos episódios de três minutos cada se ouve uma interrupta, repetitiva e alegre trilha sonora que, aliada aos traços claros e kawaiis, tem participação expressiva na construção de uma atmosfera aconchegante e festiva na série. Sem rumo nem objetivo algum, “Poyopoyo” ostenta rapidez e variedade em suas pequenas narrações ao mostrar, sem parar, vários pedaços da vida de Poyo, seus donos e os amigos e conhecidos destes, indo num mesmo episódio desde cenas suaves e bonitinhas a outras mais adultas e questionáveis – como, por exemplo, dois gatos machos fazendo “aquilo”...

Com isso, se de “Buta” a “Oruchuban Ebichu”, somente o anime da hamster tem humanos interessantes e com certa importância, “Poyopoyo” obtém êxito semelhante nessa área e possui também bons personagens dessa espécie, a destacar exatamente a própria e tranquila família Sato, formada pela avoada dona de Poyo, Moe, seu irmão Hide – com quem Poyo tem eternas desavenças -, e seu pai Shigeru – um homem do campo musculoso e desenhado a traços duros e viris, mas que diante de qualquer gato perde toda a compostura e amolece o coração. Poyo e sua forma esférica, seus miadinhos graciosos e os “mistérios” que lhe rondam é – quase - sempre o centro das atenções, porém ele não é o único responsável pelo bom andamento da série – diferente de “Chi’s Sweet Home” e “Higepiyo”, que se apoiam em demasia no carisma de seus animaizinhos, aqui há episódios onde Poyo mal aparece -, e o “character design” suave e um pouco SD dos humanos tem considerável culpa na simpatia que tomamos pelo elenco como um todo.

Criaturas mais estranhas ainda: além de um gato de corpo macio e perfeitamente redondo, a veterana Ikue Ootani é a dubladora de Pikachu na série “Pokemon” e de Chopper no interminável “One Piece”. “Pika pika”, “Poyo poyo”...  Ela não deve ter muita dificuldade em decorar suas falas...

Incompleto: exibido desde janeiro desse ano, o anime já chegou a 30 episódios (isso na época em que este texto era escrito, dois dias antes de ser postado) e permanece não tendo previsão para término. Destes, o autor dessa matéria assistiu vinte e seis.



Shirokuma Cafe








De onde saiu: Mangá, 4 volumes, em hiato.

A história: Começando com um panda que procura por emprego, o anime segue a vida diária dos diversificados clientes de um café, gerenciado por um urso polar e frequentado tanto por animais, quanto por humanos.

Espécime animal: Variados, mas os protagonistas são um urso polar vaidoso, um panda preguiçoso e um pinguim que sofre de amor platônico.

Não se espante se, enquanto espera um urso polar de avental trazer seu pedido, tiver na mesa ao lado um panda comendo bambu ou um pinguim falando sobre a amada; no “Café do Urso Polar” – nome bem direto e claro – isso é absolutamente banal, e nesse mundinho fantasioso animais e humanos coexistem pacífica e perfeitamente entre si.

Possuidor de um carisma tão grande quanto seu tamanho, logo no primeiro episódio o Urso Polar conhece Panda, um panda (...) folgado que procura por emprego a mando da mãe. Sendo rejeitado na entrevista para trabalhar no café, ele tenta um trabalho no zoológico da cidade e é rapidamente aceito para preencher a vaga como panda de meio período - serviço ideal para ele, pois basta agir como um panda qualquer para entreter os visitantes (ou seja, fazer gracinhas, comer muito e dormir mais ainda). A partir disso o anime fixa a maior parte de seu tempo na rotina do café e seus clientes, em especial esses dois personagens mais o Pinguim, ave que é frequentadora assídua do local.

Sereno e relaxante, “Shirokuma Cafe” traz em si uma comédia simultaneamente bobinha, mas sagaz, e se impregna do ar habitual do tipo de comércio gerenciado pelo Urso Polar, reinando em sua duração toques instrumentais de fundo vagarosos e diálogos triviais repletos de bom humor e trocadilhos - especialmente quando envolvem o Urso Polar e seu amigo Pinguim, sendo este último muito bem dublado por Hiroshi Kamiya (seiyuu com papéis principais em “Natsume Yuunjichou” e “Bakemonogatari”). De personalidades totalmente distintas, o trio de protagonistas mostra uma excelente química em suas pacatas conversas, e, se Panda tem somente a auto aclamada fofura como atrativo, Pinguim e sua paixonite sem fim e Urso Polar e suas piadas inteligentes roubam a cena, se tornando dessa forma os melhores personagens do anime. Ademais, mesmo que poucos em meio a tartarugas que falam assombrosamente devagar e coalas que dormem vinte horas por dia, há também bons personagens humanos, a destacar a bela Sasako, garçonete do café, e o bondoso Handa, funcionário do zoológico em que Panda trabalha.

Seja Panda reclamando novamente de seu serviço desgastante e tedioso – cansa só comer e dormir o dia inteiro – ou Pinguim sendo ignorado ao repetir seus devaneios amorosos, “Shirokuma Cafe” pode não apresentar um enredo sólido e nem aparentemente adulto, contudo seu ritmo sossegado e animação sóbria o impregnam com uma maturidade característica em obras destinadas ao público mais velho – no caso, o josei, pois ele vem de uma revista direcionada a esse nicho. Torna-se um bem sucedido anime “iyashikei”, ao transportar o espectador, mesmo que por vinte minutos, a um ambiente confortável e colorido, o fazendo esquecer-se da atribulada vida real. E se animes nesse estilo há aos montes atualmente, a série se sobressai ligeiramente por colocar animais sem nomes próprios no meio e com estereótipos condizentes às suas espécies, o que lhe dá um espirituoso e charmoso tom de fábula unido a componentes modernos.

De negativo, o anime sofre exatamente com aquilo que é um de seus atributos, o desenvolvimento lento dos episódios; ele se transforma em algo aborrecedor e cansativo nos instantes em que as conversas não são capazes de fisgar o interesse daquele que vê a série, por serem ou tolas, ou comuns demais. A seu favor, porém, pode-se dizer que esses momentos são escassos, quebrando poucas vezes a narração estável da animação.

Incompleto: iniciado em abril desse ano, o anime permanece em exibição, sem previsão de data para término. Para esse texto, foram vistos doze episódios.

Mangá paralisado: em junho a autora Higa Aloha anunciou em sua conta no Twitter a paralisação do mangá devido ao próprio anime exibido na televisão: o motivo é que ela alegou não ter recebido qualquer contrato escrito para a adaptação de sua obra.

Após reuniões com a editora que publica seu mangá, Monthly Flowers, Higa deixou clara sua satisfação para com a qualidade do anime, mas reclamou do fato de a revista estar aprovando sozinha o “character design” e os roteiros da animação. Além de um pedido de desculpas, ela teve como resposta a promessa de que a deixarão supervisionar o projeto; mas, mesmo assim, a serialização de seu trabalho continua suspensa por tempo indeterminado.



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4 comentários:

  1. Olha só, uma lista de 10 animes com algo em comum, e eu nunca vi nenhum nome haha

    Interessei nesse Higepiyo, baixarei.

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  2. Respostas
    1. A cota para hamsters já tinha sido preenchida com "Oruchuban Ebichu", ha...

      Mas falando sério, nem pensei em adicionar esse porque nunca achei muita graça no anime.

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