19 de fevereiro de 2013

Resenha: Mitsudomoe



O moe politicamente incorreto, mas absurdamente hilário



Ano: 2010
Diretor: Masahiko Ohta ("Kotoura-san", "Minami-ke", "Yuruyuri")
Estúdio: Bridge
Episódios: 13
Gênero: Comédia / Slice-of-Life
De onde saiu: Mangá, 12 volumes, em andamento.



*****


A ansiedade e o ânimo do novato Satoshi Yabe eram enormes; estava prestes a iniciar sua carreira profissional, ao tornar-se o novo professor de uma turma do sexto ano do ensino fundamental. Tinha confiança, se sentia preparado, era um jovem - virgem... - feliz e com futuro pela frente. Porém, mesmo estando avisado das alunas que encontraria na sala, jamais imaginaria que sua primeira aula fosse terminar com duas pessoas desmaiadas no chão sangrando, sendo ele próprio uma delas...

Independente de ser algo voltado exclusivamente à comédia ou de ter no seu interior um ingênuo romance, a ambientação de todas as produções de Masahiko Ohta seguem um mesmo padrão; relações amenas e engraçadinhas entre os personagens, com um às vezes leve, às vezes nem tanto, toque de malícia. O estilo de "Kotoura-san", uma das surpresas positivas dessa temporada (inverno de 2013), não chega a ser uma exceção em sua carreira; seu primeiro trabalho como diretor, "Yoake Mae Yori Ruriiro na: Crescent Love", de 2006, também era uma comédia romântica com uma pitada dramática no meio e uma história mais fantasiosa. Contudo, Masahiko ficou popular nos últimos anos através dos "slice-of-life" de garotinhas que comandou, no caso a primeira temporada de "Minami-ke" (o dia a dia de três irmãs), as duas de "Yuruyuri" (o dia a dia de quatro meninas em um clube), e as duas de "Mitsudomoe" (repetição do tema de "Minami-ke"). Este último, em tese, é mais um anime que narra a rotina de garotas estudantes: mas, oras, como é prazeroso descobrir que ele vai muito além disso.


Mitsuba, uma criança demasiada precoce para sua idade, que se acha superior a todos e adora fazer os outros sofrer. Futaba, uma menina bobinha, bondosa, absurdamente forte e que ama, idolatra, seios. E Hitoha, uma garota organizada, quieta, misteriosa e de poucos amigos. Essas são as irmãs Marui, alunas da sala do pobre Satoshi. Apesar de trigêmeas, são totalmente diferentes entre si - detalhe que o anime realça no início e que nós mesmos não demoramos a perceber.

O que também não leva muito tempo para ser percebida é a agilidade da animação, que a diferencia de outras séries do gênero. “Mitsudomoe” não estreia naquele ritmo moroso e enfadonho; ao invés de sermos apresentados primeiramente a uma garotinha insossa e lerda conversando futilidades com suas amigas, o que presenciamos de cara é uma luta violenta entre Futaba e todos os garotos de sua classe, com ela ganhando com extrema facilidade. No lugar de um ar inocente irritante e exagerado em que a citação de um beijo causaria vergonha e rostos vermelhos, se vê já no primeiro episódio vários palavrões e muitas piadas de cunho sexual, onde a palavra “mamilo” cria um mal entendido imenso e hilário.

E mal entendidos são a base do humor da série. O pai das garotas sendo constantemente abordado pela polícia e preso por conta de sua aparência suspeita, que o faz parecer um aliciador ou ladrão. A amável Hitoha tentando conversar sobre seu “super sentai” favorito, mas sempre provocando interpretações errôneas e levando o diálogo a rumos inesperados, graças à sua incompetência em se comunicar. Confusões com calcinhas, com sutiãs, frases de duplo sentido, frases mal explicadas, cenas ambíguas. Situações diversas que usam de forma eficiente um método manjado para criar uma comédia criativa e inspiradora que faz rir bastante, ainda que seja com piadas às vezes polêmicas e questionáveis.

Digo isso, pois, caso fossem estudantes do ensino médio, esse cenário sensual e sujo seria mais aceitável. Mas, como são pré-adolescentes do sexto ano, quase crianças, há de produzir certo desconforto piadas maliciosas em que os personagens mostram um conhecimento bem maior do que deveriam para temas adultos. Ademais, têm as cenas sugestivas e diálogos que encostam perigosamente na pedofilia; nunca passam de meros mal entendidos, porém continua a ser um humor duvidoso que pode, de vez em quando, fazer-nos sentir culpados por estar achando graça nele, caso estejamos - momentos como os de Satoshi sofrendo injustas acusações de pedofilia ou de ensinar imoralidades aos seus alunos são realmente bem conduzidos, mas com frequência incômodos. Outro ponto censurável é seu fanservice, raramente explícito, mas presente em um bom número de sequências que tiram proveito dos traços macios dos personagens, sem falar nos próprios mal entendidos que arrancam os significados mais sujos das frases ditas com a maior inocência. E deve-se considerar que o anime de “Mitsudomoe” é bem mais leve que o mangá, que possui o ecchi como uma característica marcante.


Entretanto, ao invés de se tornar um intragável "Kodomo no Jikan", anime onde a fraquíssima comédia e os momentos pseudos-sérios e forçados são engolidos por um cenário e seu fanservice ainda mais questionáveis (pois nele as garotas são da terceira série!...), "Mitsudomoe", por sorte, tem contigo nomes que o levam a um caminho diferente e mais bem sucedido, pelo menos na qualidade. A obra original de "Kodomo no Jikan" por si só já era fraca, e o anime, em mãos inexperientes, não foi muito além disso; já "Mitsudomoe" teve não somente Masahiko Ohta na direção como ainda o bom Takashi Aoshima (roteirista de "Yoake", "Karin" e "Kotoura-san") na composição dos episódios - ou seja, entre outras tarefas, a análise e junção dos roteiros feitos por ele e outros escritores antes de passa-los ao diretor. Responsável também nessa área em "Yuruyuri" e "Minami-ke", Aoshima auxilia Masahiko a ampliar e aprimorar o limitado material do mangá, garantindo dinamismo e naturalidade na evolução das pequenas narrações da série – quase todos os episódios são divididos em quatro curtas –, narrações estas onde um acontecimento inicialmente normal toma proporções gigantes de imprevisibilidade. Além disso, como consequência desse aprimoramento, há uma predileção ao desenvolvimento da comédia do que ao ecchi, tornando-a mais importante em um todo - as cenas são boas porque fazem rir, não porque exibem um fanservice com estudantes de onze anos. Apesar disso, o anime permanecerá, igual ao mangá, atraindo lolicons que queiram unicamente ver menininhas em situações maldosas? Lógico, é inevitável e gosto é gosto. Mas se a obra original apelava e apela para isso em um nível alto em sacrifício de todo o resto, a série de TV, por outro lado, mostra-se capaz de não ser tão dependente dessa ferramenta, e assim abre espaço para um público menos hardcore - no mínimo um público que faça, em prol de alguns risos, vista grossa às vulgaridades presenciadas. Mesmo com tudo isso, essa troca de valores não pareceu surtir efeito, visto as baixíssimas vendas de mídia que a série teve. Se fossem garotas intocáveis e puras...

E, às vezes, felizmente fatos isolados, nem o humor deturpado será o o problema, e sim o quão idiota e ridículo ele consegue ser em alguns instantes, como o episódio dois, por exemplo, que traz piadas baseadas em catarro e urina após o ótimo e agitado primeiro episódio. Nessas horas, não se tem Masahiko ou Aoshima algum que salve a situação, já que o melhor a ter sido feito era sequer ter adaptado tais capítulos, igual ao que fizeram a outros com temas discutíveis (alguns deles seriam os de Mitsuba expressando um amor doentio pelo professor; se fossem animados aí sim teríamos o esboço de um novo "Kodomo no Jikan"). Em suma, não será para todos os gostos, claro; mas isso está longe de significar que seja ruim.




Falei até que muito dele; Satoshi Yabe tem realmente papel grande na trama, mas só durante metade da série. Aos poucos as irmãs vão tomando seu espaço e se tornando, como deveriam, as únicas protagonistas. Outro ponto positivo de “Mitsudomoe” em relação a vários "slice-of-life" de estudantes é que há uma harmonia quanto à construção de suas personagens; geralmente somente uma ou duas carregam o anime nas costas, enquanto as outras, de tão apagadas, parecem estar ali apenas para fazer número. Já aqui é fato que Hitoha tem maior destaque, sendo a que mais aparece como principal nas pequenas histórias; contudo, Futaba e sua cabeça de vento e Mitsuba e sua mania de grandeza também são atraentes, e todas fazem rir por conta de suas personalidades peculiares. A coitada da Hitoha tentando se socializar gera ótimos momentos, tanto faz se terminando com ela fazendo uma careta mais assustadora que a da garota de “O Chamado” ou ficando toda perdida por não saber como é que sua tentativa de comunicação falhou mais uma vez. Vale citar sua seiyuu, Haruka Tomatsu (“Ano Hana”, “Hanasaku Iroha”, "Binbougami ga!"), que deu à personagem uma voz que é simultaneamente forte e frágil. Mitsuba não causa uma boa primeira impressão com sua obsessão de mandar em todos e se achar superior, porém, com o tempo vemos que é uma menina que mais faz escolhas certas do que erradas, e que precisa começar urgentemente um regime se não quiser ficar igual ao pai. Já Futaba é uma aberração sem um pingo de profundidade: não registrei isso, mas certamente não deve ter um episódio em que ela não fale em seios ou não quebre algo – ou alguém – com sua força. É burra, é lenta, mas, oh, como é adorável com sua permanente alegria e seu jeito de terminar as frases em “ssu”. 

Se no início “Mitsudomoe” dá ênfase exclusivamente à comédia, futuramente reserva espaço para pequenas tramas que focam no desenvolvimento das relações das garotas, em especial as familiares. E o que poderia ser um declínio na qualidade da série na verdade se transforma em situações que criam um carinho maior pelas irmãs Marui - e que conseguem usar levemente a comédia no meio para não deixa-las maçantes. Ainda nesse quesito, há de se mencionar os coadjuvantes, que são bem compostos e razoavelmente interessantes, baseando-se muito em estereótipos comuns a esse meio como a riquinha mimada, o tarado da sala ou o bonitinho popular com as garotas. Lidera aqui o pai das trigêmeas, homem de ótima índole, mas que deve conhecer todos os policiais e delegacias da cidade só por causa de sua aparência...


O anime em si, aliás, tem um visual mais contraditório do que o desse bom sujeito; é possível achar na internet textos de pessoas falando que os traços são tanto “a coisa mais açucarada e infantil do mundo” quanto “terrivelmente grotescos e de mau gosto”. Hipérboles à parte, “Mitsudomoe” exibe um "character design" altamente moe que em nada denuncia seu conteúdo real – um contraste tentador para a criação de obras pornográficas feitas por “fãs”. Excluindo o desenho do pai das irmãs, que exibe traços fora de linha e grossos como se tivesse saído de um anime da década de 70 – e que aumentam seu ar suspeito –, a maioria dos personagens ostenta bochechinhas, cotovelos e ombros rosados, cabeças redondinhas, corpos aveludados e boquinhas que parecem ter só um dente; é um visual fofo e bonitinho, apesar de poder parecer estranho num primeiro encontro. Diria que são tão fofos que dá vontade de apertar, que nem Futaba com os sei... Digo, são melhores, ao menos, que os traços da obra original, estes pobres e toscos. E é difícil não cair em amores por Futaba ao vê-la com olhinhos sem fundos que lhe dão uma aura mais idiota e ingênua ou por Hitoha quando bufa de satisfação. Afora isso, o estúdio Bridge fez um trabalho primoroso quanto à movimentação e fluidez na animação – sequências como a luta do primeiro episódio possuem uma qualidade técnica deveras acima do que comumente se vê em animações do tipo. Tendo apenas as duas temporadas de "Mitsudomoe" como produções próprias, só agora o estúdio estará à frente de uma nova série de TV, nesse caso "Devil Survivor 2 The Animation", previsto para estrear em março desse ano.

Por fim, outro nome velho conhecido de Masahiko e Aoshima que vale a pena citar é o de Yasuhiro Misawa, autor das trilhas sonoras desde os já citados "Minami-ke", "Yuruyuri" e "Kotoura-san" a outras séries como "Kokoro Connect". As falsas partes de suspense e drama causadas por mal entendidos, as que mostram verdadeiros acontecimentos “bolas de neve” incontroláveis, os raros instantes de calmaria... Suas execuções pontuais e bem ritmadas dão um sentido e humor maiores a estes momentos, que se aproveitam o quanto podem de uma ferramenta inexistente no mangá. Em relação às músicas de abertura e encerramento, se a primeira não é memorável e original, no mínimo é agradável enquanto se assiste o anime; quanto à segunda, tem-se uma bobinha, mas relaxante música cantada por Saori Atsumi, autora de músicas tema em “Genshiken” e “Midori no Hibi”.


É incorreto, vulgar e de quando em quando inconveniente; mas e daí? O humor de alto nível paga as transgressões que o anime comete em seus treze episódios. Garotinhas puras e conversas fúteis não são ruins; mas o excesso cansa e vicia. E “Mitsudomoe” pode não ser a melhor animação desse gênero, todavia é uma das que mais causa risos - apesar de conseguir isso através de métodos que nem todos aprovarão.


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Nota: 8

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