18 de julho de 2015

Entrevista com Shimoku Kio (autor de Genshiken)



Após passado um longo período eu decidi enfim voltar com as traduções de entrevistas realizadas pelo Anime News Network; nessa retomada, trago-lhes uma publicada dia 3 de fevereiro cujo entrevistado foi Shimoku Kio, autor do popular "Genshiken", mangá que narra a rotina dos membros universitários de um clube de animes e mangás intitulado "Sociedade para o Estudo da Cultura Visual Moderna".


A obra é dividida em duas fases, sendo a primeira composta por 9 volumes publicados entre 2002 e 2006 (e que foram lançados recentemente pela JBC aqui no Brasil), e a segunda por atuais 7 volumes desde 2009, onde houve uma mudança no elenco principal, agora predominado por mulheres. A primeira fase foi adaptada ainda em duas séries de TV e uma em OVA durante os anos de 2004 a 2007, enquanto que a segunda recebeu uma animação para a TV em 2013. Em relação a entrevista, essa foi realizada por Lauren Orsini, havendo perguntas tanto da equipe do ANN, quanto algumas enviadas por fãs, e ela pode ser lida no idioma original clicando aqui.

Pessoalmente, no geral eu achei uma boa entrevista (bem melhor do que aquelas certinhas e genéricas de dubladores, por exemplo), apesar de ele não ter sido muito detalhado em algumas respostas. Segue agora o texto, traduzido na íntegra:




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ANN: Quanto da sua própria vida é refletida nos personagens de "Genshiken"?

Shimoku Kio: Creio que há muita influência de minhas experiências passadas e personalidade. Embora não tenha sido exatamente o mesmo, eu costumava fazer parte de um clube semelhante na faculdade; penso que as emoções turbulentas e o sentimento de inferioridade sofrido pelos personagens vêm de minhas próprias sensações. Alguns integrantes do elenco da obra não são assim, e com eles passo por dificuldades para incorpora-los na história - por exemplo, eu não possuo nada em comum com o Makoto Kosaka, logo não tenho ideia do que ele está pensando.


"Genshiken" começou como um trabalho cujo elenco era quase totalmente masculino, enquanto "Genshiken Nidaime" possui elenco majoritariamente feminino. Quais foram os desafios ao mudar a escrita da perspectiva de homens para o ponto de vista de mulheres?

Isso foi difícil porque eu não podia imaginar que tipo de conversas estudantes universitários do sexo feminino têm normalmente. Algumas das perguntas que tive foram "Será que elas só falam sobre coisas otaku?" e "O que mais elas falariam?". No final, acabei colocando-as conversando sobre BL (Boys Love) o tempo todo. Não conheço muito sobre BL, mas pelo menos é algo que eu consigo compreender.



O processo de escrita tornou-se mais fácil com o sucesso crescente, ou você tem sentido uma pressão maior para criar um conteúdo ainda melhor?

Julgo que comecei a pegar o jeito do processo: formação de uma ideia, estruturação da história, criação do rascunho, e finalização do script. Eu definitivamente estou começando a entender o que devo fazer, e como estabelecer cada um desses processos - no entanto, não sei ao certo se isso é necessariamente algo bom. Ultimamente não houve nenhuma ocasião onde tive que me esforçar muito para vir com alguma ideia louca; também pode significar que estou me acostumando com a pressão, mas, de novo, não tenho certeza se é bom sinal.


Madarame, em especial, tem crescido como personagem ao longo dos anos, passando de um estranho fanboy de 2D para um homem mais sociável e com seu próprio harém! É este um reflexo da popularidade inesperada dele com o público feminino, ou tem algo mais?

A popularidade do personagem nunca teve influência; aconteceu naturalmente conforme escrevia a história. Pra começar, já haviam alguns personagens interessados em Madarame, logo ele ser rejeitado pela Saki deve ter sido o ponto de partida para isso.



As personagens americanas, Sue e Angela, são otakus bastante orgulhosas, enquanto que os personagens japoneses parecem muito mais envergonhados em relação ao seu amor por animes. Será que isso reflete sua experiência com a recepção do estilo de vida otaku em ambos os países?

Não tenho experimentado isso em primeira mão, mas tenho lido e ouvido sobre, e o resto é apenas com base em como eu imagino as coisas considerando aspectos culturais.



Como a sua fama difere no ocidente em relação ao oriente? Você esperava que os fãs ocidentais captassem suas referências mais obscuras de animes?

Não estou completamente ciente da reação dos fãs no ocidente, mas fico surpreso em ouvir que pegaram essas referências a animes; gostaria de saber o quanto de anime e mangá eles assistem e leem. Não sou o tipo de pessoa que deseja conhecer as reações dos leitores, pois tenho receio de que sabendo isso a minha escrita se tornará tendenciosa a fim de atender às preferências deles.


Ohno faz muitos cosplays de personagens de animes e jogos mais modernos. O que você pensa a respeito do estado atual da animação? Na sua opinião, a indústria tem melhorado?

Eu não estou inserido na indústria da animação, por isso a minha opinião vai ser como um espectador, porém acho que a tecnologia de vídeo tem definitivamente feito progressos; animações de alta qualidade me fazem sentir realmente bem apenas por vê-las rolar na tela. Por outro lado, porém, o estado da produção com sua falta de programação e recursos não mudou muito. Sinto que há apenas um punhado de estúdios de animação que são capazes de completar uma série de TV do início ao fim mantendo o mesmo nível por toda parte - é bastante comum presenciar apenas o primeiro e o último episódio em qualidade alta...



Perguntas dos fãs:

Qual é a relação entre um outro mangá seu,"Spotted Flower" (mangá em publicação desde 2010 que narra a vida de um otaku recém-casado e sua esposa), e "Genshiken"?

Hum? Não há nenhuma.

... E essa é a minha declaração oficial.

O título (em tradução literal, "Flor Manchada") foi apenas uma ideia boba que eu tive após a criação do conceito do casal e notar que seus sentimentos eram muitos familiares a mim. Honestamente não sei o que fazer com a grande reação que acabou recebendo dos fãs mais tarde. (confesso que não entendi bem que relação é essa com o título, porém li pela internet que fãs encaram muito o casal protagonista desse mangá como se fosse uma versão de Madarame e Saki caso os dois tivessem se casado)

Mesmo a partir da fase de planejamento não houve qualquer intenção de relacionar as duas obras de alguma forma - a ideia nunca sequer surgiu durante as discussões com o meu editor.


Quando se trata de Ogiue, uma das mudanças visuais mais notáveis é a forma como seus olhos são desenhados. Visto que isso é exclusivo dela em "Genshiken", por que você decidiu expressar seu crescimento mental e emocional dessa maneira? Além disso, é algo que planejou fazer desde o início, ou foi desenvolvido conforme ia trabalhando no mangá?

Foi acidental e naturalmente desenvolvido.

Para colocar ênfase em seu olhar hostil e natureza distante, eu projetei os olhos sem brilho. Depois de sua transição mental essas características foram se alterando, e os traços iniciais já não funcionavam mais.


De todos os personagens introduzidos em "Genshiken Nidaime", Hato era o meu favorito. Como alguém que passou por muitas experiências em torno de identidade de gênero na faculdade, foi bastante surreal ver os confrontos da vida real serem jogados no anime. Acompanhar Hato trouxe-me de volta diversas memórias nostálgicas, e estou curioso para saber como exatamente esse personagem veio a ser criado, já que a maioria dos animes e mangás que eu vi no passado não transmitiram uma sensação assim tão pessoal e genuína ao retratar personagens similares a ele.

Quando eu preparava os novos personagens, considerando a imagem que Ogiue estava usando para convidar novos membros, percebi que mulheres com um interesse específico viriam a se juntar. No entanto, achei que um elenco inteiramente feminino seria algo que desequilibraria o mangá, porém naquela época um gênero chamado "otokonoko" ( : homens que se travestem como mulheres) estava sendo introduzido como um tema aos otakus.

"Posso usar isso", pensei, e foi assim que tudo começou.

Todavia, "Genshiken" retrata um mundo que é relativamente realista, e eu não sabia como poderia incorporar um personagem desses em tal título. Tive que pensar a respeito indo nessa direção; cheguei até a criar um storyboard onde aparecia um personagem masculino totalmente diferente, mas decidi ao menos dar uma chance para esse conceito, e começei a trabalhar nele. Surpreendentemente, apesar de minha preocupação, tudo acabou se ligando muito bem. Mesmo como autor eu não esperava o quão mente aberta o clube "Sociedade para o Estudo da Cultura Visual Moderna" poderia ser.

A capacidade do personagem para alternar entre as vozes masculina e feminina foi uma grande vantagem também. Eu ouvi pessoas de verdade com esse tipo de habilidade, e elas realmente soavam como se fosse alguém diferente.

"Isso vai funcionar.", me senti confiante.

Imagino que parte do problema era convencer a mim mesmo. Precisava ser convencido pelo "otokonoko", e, naturalmente, isso criou um personagem mais verossímil.

Ao mesmo tempo, eu não queria que o personagem fosse muito realista. O tema de identidade sexual pode ser demasiado pesado para um mangá de comédia. Assim sendo, de certa forma isso pode ter sido algo óbvio de ser feito, porém eu adicionei outro elemento, "fudanshi" (homens que gostam de BL; é a versão masculina para "fujoshi"), ao personagem. Creio que ele é o primeiro e até agora o último personagem que é uma combinação de "otokonoko" e "fudanshi". Esta junção é muito improvável na vida real, e isso ajuda a manter a sensação de ficção encontrada no mangá.

Para concluir, Hato nasceu porque seu personagem era uma necessidade na criação desta mangá. Dito isto, a sua identidade sexual tem se transformado desde o início... e as coisas estão ficando um pouco complicadas agora... Sabia que a incorporação de um personagem como Hato tornariam as coisas difíceis, e eu dizia isso para as pessoas ao meu redor também, mas... elas estão definitivamente muito complicadas na parte atual da obra.

Oh, cara...


O fim do anime de "Genshiken Nidaime" se desviou do mangá. Quanto digamos que você teve de participação na história do último episódio?

Durante a produção do anime meu papel era verificar a ambientação da história, responder a perguntas durante audições, participar de discussões de cenário, assistir as sessões de gravação de voz e checar os previews do próximos episódios. Na verdade, eu acabei escrevendo a maior parte dos previews a partir do zero durante o processo; era algo como criar tirinhas bônus que certos quadrinhos possuem no final, e gostei muito de fazê-los. Espero que vocês possam apreciá-los.

Participei de quase todas as discussões de cenários e sessões de gravação. Ajudei a dar uma visão sobre a compreensão da história original. Criação de cenários e gravações de voz são como o início e o término do processo de produção da história, por isso, enquanto eu estivesse lá nessas horas, percebi que quaisquer discrepâncias importantes poderiam ser evitadas. Tsutomu Mizushima ("Shirobako", "Prison School", "xxxHOLIC"), o diretor, e Michiko Yokote, a roteirista ("Shirobako", "Prison School" e "xxxHOLIC" também, e na verdade são três mulheres que atuam juntas sob esse nome), estavam envolvidos com a produção desde o primeiro anime, e confiava neles plenamente.

Todo mundo apresentou sua ideia para o episódio final, porém Michiko Yokote escreveu a maior parte da história sozinha. O único trecho que contribuí foi uma das conversas nas fontes termais, onde Yoshitake indaga a Ono e Ogiue sobre seus peitos.


Como você acha que a atenção internacional dos Jogos Olímpicos (em 2020, em Tóquio) afetará Akihabara e a cultura otaku no Japão? Quantas mais Sues e Angels imagina que virão?

Sou de uma geração que foi criada para se envergonhar de ser um otaku... então minha opinião honesta seria que eu espero que eles não chamem muita atenção. Na verdade, eroge (jogos pornográficos japoneses) e alguns doujinshi (conteúdo otaku auto-publicado) não são produtos que podemos orgulhosamente recomendar a todos. Essas coisas devem ser mantidas como passatempos pessoais e trocadas somente entre aqueles que estão interessados neles.

Nós não queremos mostrá-las para o mundo inteiro.

Se você estiver interessado, então vamos recebê-lo não importa sua nacionalidade.

... É um ponto de vista vista como esse muito tradicional?

Acho que a cultura otaku tornou-se bastante generalizada e popular no Japão, também. Ficou difícil dizer "isto é ser otaku" e dar uma definição específica para isso.



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Clique aqui para visualizar outras entrevistas traduzidas.

Recomendação de leitura: "X10: Dez animes no mundo otaku".



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