1 de novembro de 2015

Resenha: Sore ga Seiyuu!

Os altos e baixos de um trio de novatas moe no ramo da dublagem


Ano: 2015
Diretor: Hiroshi Ikehata ("Robot Girls Z")
Estúdio: Gonzo
Episódios: 13
Gênero: Comédia / Slice-of-Life
De onde saiu: Doujin, 2 volumes, em andamento.



Por Erick Dias

Hiroshi Kamiya em "Sayonara Zetsubou Sensei". Tomokazu Sugita em "Suzumiya Haruhi no Yuuutsu". Hirano Aya no mesmo anime. Fukuyama Jun em "xxxHOLIC". A voz suave de Mamiko Noto em "School Rumble", o tom enérgico de Kaori Mizuhashi no papel de Miyako em "Hidamari Sketch", os vários "Urusai, urusai, urusai!" ("Cale a boca, cale a boca, cale a boca!") de Kugimiya Rie com suas tsunderes mais icônicas, a voz potente do ex policial Norio Wakamoto que me foi apresentada na pele de um gato(?) bizarro em "Azumanga Daioh"... Esses são alguns, apenas alguns, dos profissionais que me fizeram, quase uma década atrás, começar a prestar mais atenção não apenas no que via em um anime, mas também ouvia. Minha fixação por dubladores, ou "seiyuu" em japonês, chegou a tal ponto que não era raro assistir vários animes em sequência cuja única ligação era algum dublador em papel principal ou secundário – e, obviamente, isso me fazia esbarrar tanto em ocasionais pérolas, quanto em terríveis produções na qual a boa atuação da pessoa em questão não seria motivo o suficiente para me fazer continuar vendo aquilo. Os atributos vocais de uma Miyuki Sawashiro ou Romi Park da vida não mudavam na maioria das vezes, mas já o personagem que representavam ou a história onde esses estavam inseridos, bem...



Hoje não sou tão aficionado assim nesse assunto (quantos animes com Hanazawa Kana deixei passar batido de um ano pra cá por saber que não seriam do meu agrado, por exemplo, enquanto que antes via qualquer animação em que ela atuasse!), porém ainda estimo e tenho considerável interesse na profissão dessas pessoas que, ao contrário do que muita gente acredita, mesmo os mais populares do ramo estão longe de serem famosos fora do nicho otaku, com raríssimas exceções, e boa parte deles não consegue se manter somente com o uso de sua voz, principalmente no início da carreira. Logo, talvez seja esse o motivo de ter me apegado tanto a "Sore ga Seiyuu!", anime encerrado há algumas semanas que narra o esforço diário de três dubladoras novatas, sendo elas a tímida Ichinose Futaba, a sonhadora e hiperativa Ichigo Moesaki e a recatada Rin Kohana, em obterem um lugar ao sol numa indústria extremamente competitiva e inchada, na qual um único papel em um anime pode ter dezenas de concorrentes querendo adquiri-lo - aliás, tal animação tem como origem um doujin em estilo 4-koma publicado desde 2012 pelo mangaká Kenjiro Hata (autor de "Hayate no Gotoku!"), que cuidou da arte, e a dubladora Masumi Asano, que foi responsável pela história.


No Japão os dubladores, de acordo com sua experiência e popularidade, são classificados em um sistema de ranking que vai de A a F, além de um degrau que tem acima de A que é para aqueles que podem estipular o valor de seu próprio cachê. Em média, os ganhos variam hoje de ¥15,000 (R$487,00) a ¥45,000 (R$1462,00) por episódio em que atuam em um anime para a TV (outras mídias, como jogos ou programas televisivos, podem pagar mais), valendo ressaltar que a importância do papel ou a quantidade de falas não influenciam esses números; resumindo, se um dublador em início de carreira participa de apenas uma animação em qualquer temporada, isso lhe rende por volta de ¥60,000 (R$1948,00) por mês, pouco para quem tem de morar em Tóquio devido a sua profissão (a grande maioria dos estúdios é de lá), uma das dez cidades com maior custo de vida no mundo, onde somente o aluguel de um quarto de meros 15m² já consome quase todo esse valor - o "segredo" é ir acumulando trabalhos em sequência, e em mais de uma área se possível, contudo o caminho é longo até que se alcance esse ponto. "Sore ga Seiyuu!" não chega a citar rendimentos, porém para as ainda desconhecidas Ichinose e Ichigo a situação financeira precária e agendas vazias as obrigam a caçarem trabalhos de dublagem enquanto ficam dependentes de empregos de meio período em um supermercado, no caso da primeira, e numa fábrica de alimentos no caso da segunda - a Rin é a única que ainda estuda e que na verdade já possui certa experiência no mundo do entretenimento, por ser uma atriz mirim desde os cinco anos. Inicialmente, as três se conhecem ao participarem de um anime mecha original produzido pelo "mundialmente famoso" estúdio Zongo (ah, Gonzo, que trocadilho besta, e aqui eu acredito ser uma indireta a "Burst Angel" de 2004), e após isso acompanharemos a cada episódio os dois maiores trunfos de "Sore ga Seiyuu!", que é o fato de mostrar a rotina das várias atividades que um dublador está sujeito a realizar, bem como as aparições de alguns profissionais populares personificando a si próprios no anime, para sorte das protagonistas debutantes.


Seja na TV Gonzo, na rádio Gonzo, no Studio G ou em qualquer outra afiliada do que parece ser nessa série uma sólida empresa de consideráveis proporções - bem diferente da realidade de um estúdio que sofre com frequentes problemas financeiros... -, as três garotas esbarram em personalidades que lhes dão providenciais conselhos, usualmente salpicados de muito romantismo, para os constantes obstáculos que elas encontram na profissão. Já no primeiro episódio, após se perder toda ao receber de repente a ordem de dublar um "kaneyaku" (personagem sem nome, possuidor de uma ou duas linhas, que recebe a voz de alguém que tenha um papel secundário na animação), Ichinose é consolada pela eterna dubladora de Goku, Masako Nozawa, sobre como ela deve estar sempre preparada para fazer de tudo nessa indústria já que nunca se sabe o que lhe pedirão de última hora; mais a frente, desapontada ao sair de um anime tão cedo por conta da morte de seu personagem, a garota ouve do veterano Banjou Ginga a confissão de que ele mesmo já perdeu a conta de quantas vezes morreu das mais diversas formas, contudo destaca como até nesses momentos deve-se mostrar uma atuação notável para com o personagem que demos vida; e em outra ocasião, dessa vez focada em Ichigo, essa escuta de uma Horie Yui desleixada com sua própria aparência fora dos holofotes algumas palavras que ajudam a diminuir seu nervosismo causado por ter de participar, com ela e outros dubladores, de um evento anunciando um novo jogo em um palco de grandes dimensões. Veremos também um alegre Hiroshi Kamiya com cara de moço (todos aqui parecem bem mais jovens do que de fato são, na realidade), uma Yukari Tamura literalmente brilhante(!), uma Noriko Hidaka em brevíssima aparição, um Yuji Machi (esse é mais conhecido por suas narrações em programas de TV) pra lá de carismático e tagarela, e por aí vai - detalhe curioso sobre esses "convidados especiais" no anime é que a autora do doujin, Masumi Asano, revelou recentemente que as frases de todos eles foram baseadas em entrevistas que cada um deu dizendo o que falariam caso se encontrassem em situações semelhantes as que são retratadas na história. E aproveitando a citação a Yuji Machi, que aparece quando Ichinose é escolhida para narrar a vinheta de um programa de televisão onde, geralmente, o vídeo e o script são apresentados somente no dia da gravação para o dublador, é nesses trechos que "Sore ga Seiyuu!" nos mostra como são variadas as opções de trabalho disponíveis para as vozes desses profissionais, sendo que para alguns a participação em animes nem chega a ser sua área principal como já seria de se esperar.


Claro, é sempre bom ter um papel regular numa série de TV, pois isso significa trabalho garantido por pelo menos três meses; contudo, novatos tem que agarrar qualquer oportunidade que vier até eles, e assim flagramos os pequenos truques e procedimentos que regem sessões de dublagens como as de filmes estrangeiros, audiolivros e jogos, surgindo ainda para as garotas a chance de protagonizarem um programa de rádio voltado ao anime em que estão juntas (as escolheram por serem mais baratas do que se reunissem os dubladores principais, mas okay, e de fato essa é uma ação rotineira, pois já houveram vários programas de rádio de animes liderados por dubladores de papéis secundários) e, devido ao sucesso obtido, elas chegam inclusive a formar um trio musical que passará por poucas e boas para se tornar minimamente popular - outra atividade que auxilia na divulgação de um rostinho novo. De resto, no meio de curiosidades do ramo inseridas aqui e ali (várias delas, aliás, explicadas em off pelo cachorrinho bizarro da imagem acima, personagem de um anime fictício do qual Ichinose gosta) e as eventuais intervenções já citadas de dubladores renomados para dar uma ajudinha às protagonistas, Ichinose, Ichigo e Rin enfrentarão outros habituais dramas em suas jornadas, como desilusão por ficar muito tempo recebendo um não atrás do outro em audições, insegurança quanto a qualidade de seus trabalhos e o futuro incerto de um emprego que o impele a passar por frequentes avaliações para seguir em frente, decepções e inveja ao ver a amiga companheira de profissão obter aquilo que você almejava e doenças e lesões que viram de cabeça pra baixo sua carreira ainda frágil, dentre outros eventos - mas, lógico, o anime também não abre mão de sempre fazê-las exaltar como todo esse esforço e empecilhos são recompensadores nos instantes em que, por exemplo, uma delas obtém um papel numa obra que já estimava ou quando consegue ser reconhecida por um fã apesar de ainda estar galgando seus primeiros degraus. 


Após tal introdução ao teor da animação que julgo ser o suficiente para não deixar o texto mais cansativo de se ler e repleto de spoils avançados, gostaria de deixar isso bem claro: "Sore ga Seiyuu!" possui um tema que me é facilmente simpatizável, e logo não seria difícil permanecer positivo e continuar rasgando seda a seu respeito; porém, se por um lado essa homenagem toda a uma profissão é interessante, bonita e consideravelmente instrutiva, e se as protagonistas femininas tem a sua graça interagindo entre si, nível moe adequado e um desenvolvimento satisfatório em seus respectivos pequenos conflitos pessoais ou em grupo, por outro, usando um lugar comum para me expressar, o anime "não inventa a roda", de forma alguma. Principalmente nos episódios finais, "Sore ga Seiyuu!" carece muito de criatividade nas histórias apresentadas e suas resoluções, e é de se questionar como Ichinose, uma jovem tão tímida, atrapalhada e causadora de várias gafes consegue ótimas oportunidades mesmo quase nunca parecendo digna delas, sem contar as coincidências em algumas reviravoltas e a forçação de barra em certos trechos para inserir o "dublador celebridade da vez" com seus comentários oportunos. A simples e inconstante animação, de igual modo, é nível "Gonzo após quase ter fechado as portas poucos anos atrás", quando passou a produzir animes de orçamentos bem mais enxutos; enfim, no geral é uma obra "boa" em sua primeira metade e bastante mediana na segunda, ao meu ver, na qual reconheço que o entusiasmo que tenho por ela não confere com a sua qualidade real.


Se procura por títulos focados em diversas facetas do mundo otaku, olha, "Shirobako" é mais detalhado e informativo em relação a produção de animes; "Bakuman." é mais empolgante ao narrar os dissabores e conquistas de uma dupla de mangakás; e "Genshiken" é mais introspectivo e bem desenvolvido ao retratar o dia a dia do público consumidor de tal indústria, isso só para citar alguns. E quanto a "Sore ga Seiyuu!"? Bem, com sua abordagem quase que sonhadora, inofensiva, e suas limitações citadas rapidamente no parágrafo anterior, ele está distante dos títulos mais memoráveis do gênero, se junta a eles com total modéstia, mas ao menos é por ora o que melhor destacou e representou a vida daqueles que soltam os pulmões para dar voz a incontáveis personagens das mais variadas cores de cabelo - e como nota final parabenizo e muito a fofa Rie Takahashi, dubladora de Ichinose, que também é uma novata (estreou em 2014, por coincidência, em "Shirobako") no ramo e que mostrou aqui uma atuação bastante flexível e madura. Afinal, imagina você ter de dublar uma personagem que toda hora deve dublar outros personagens, sejam eles masculinos ou femininos, em tons totalmente adversos...

Em suma, anime simplista, nada ambicioso, agradável de ver mesmo com suas falhas e que terá um toque especial para quem possui interesse por esse tipo de tema. É isso, até a próxima (desde o ano passado que não escrevia um post resenhando um só anime, até me senti meio enferrujado!).

**********

Nota: 7,5

(clique em cima para uma melhor visualização)

No MyAnimeList (01-11):
O anime está na 2419ª posição, com nota 7.23. Já o doujin não se encontra ranqueado atualmente, por ter sido lido por poucas pessoas.


*****

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2 comentários:

  1. Vi esse anime em sua data de lançamento, o inicio dele é mais empolgante em comparação ao seu decorrer em minha opinião, porém bastante agradável, é bem interessante observar o desbravar (mesmo que seja por cima) da indústria de dublagem no japão.
    E deve um puta de um trabalho dublar a voz de uma dubladora iniciante ou não kkkkkkkk.

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    Respostas
    1. Sim, também citei isso no texto, o início é mais interessante mesmo, depois dá uma decaída no ritmo.

      E a dublagem de uma personagem como a Ichinose realmente é parece ser um tanto desafiadora, devido às constantes mudanças no tom da voz.

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