28 de fevereiro de 2016

Resenha: Bonnouji (mangá)





Por Tadashi Katsuren (Gabriel Katsu)

Quando falamos do gênero Slice of Life, a primeira coisa que surge em nossas mentes é a imagem do cotidiano. Daquilo que ocorre em nossa vida do momento em que acordamos até o ponto que abraçamos os sonhos mais uma vez, do início sofrível de cada semana até o aclamado fim de semana, passando pelas estações do ano, tudo isso de maneira imperceptível. Uma frase muito utilizada aqui no nosso país pode bem definir o gênero: “Nossa, já virou o ano? 2015 passou voando...” - Já. Estamos já no terceiro mês de um novo ano e vivenciamos muita coisa, algumas boas e más surpresas e um desafio aqui e acolá, seja em plano profissional ou pessoal. O que importa, é que passou. E, assim como estou eu aqui escrevendo esta resenha, está você aí lendo-a, nosso costumeiro hobby.

Isso é, em opinião pessoal, a essência do gênero Slice of Life. São diversas as obras que possuem-na como um subgênero, histórias que tratam de uma causa maior e de um enredo complexo e trabalhado que margeiam a vida convencional, mas não ingressam nela por inteira. Por outro lado, aqueles títulos que a tem como sua essência, são aqueles que praticamente abraçam a causa do dia a dia, animes e mangás que cuidam do que você comeu no café da manhã, ou sobre qual a rotina de serviço que você tem semanalmente. Nada mais. É o tipo de obra que você, depois de vinte episódios ou dez volumes olha pra trás e diz “Nossa, já aconteceu tudo isso nesses capítulos? Esse mangá passou voando...”. É exatamente a mesma sensação. É um pedaço (slice) da (of) vida (life). Embasado nessas definições do gênero, hoje trago-lhes uma obra que considero uma das que mais mergulha dentro do gênero que pude ler até agora. Falo hoje do mangá de Aki Eda...


BONNOUJI


Geralmente quando o teor alcoólico de uma pessoa está bem além dos níveis ponderáveis à sociedade, ela costuma agir e reagir de forma diferente aos impasses de sua vida. Já aconteceu comigo, e curiosamente, foi este o instrumento do destino utilizado para unir os protagonistas deste mangá. Michiyo Ozawa acaba de chegar ao seu prédio depois de uma noitada com suas amigas, estando ainda bêbada e desesperadamente necessitada para usar o banheiro. Desnorteada, impaciente e em extremo apuro, ela faz algo que só conseguiria realizar se estivesse no estado em que se encontrava: Uma vez que seu apartamento fica na segunda metade do prédio, ela para aleatoriamente no apartamento de alguém de algum andar abaixo do seu, toca a campainha e pergunta se poderia usar o banheiro dela.



Agora, entenda, não é todo dia que alguém toca a campainha de sua casa para perguntar se poderia usar o seu banheiro. É estranho, é bem incomum. Imagine agora que esta situação ocorra na conservadora e reservada terra do sol nascente, chega a ser quase inconcebível. Isso passa longe do que seria o cotidiano de uma pessoa normal, onde está o slice of life? Paciência, jovens gafanhotos, há mais adiante. Quem atende à porta é nosso segundo protagonista, o vizinho de prédio de Ozawa, Zenji Oyamada, que depois da surpresa atende prontamente ao pedido de Michiyo e concede a ela sua privacidade.

Realizadas as devidas necessidades, Ozawa vai agradecer o seu anfitrião pela sua paciência e desculpar-se pela intromissão no apartamento alheio. E nessa hora ela finalmente bota os olhos no apartamento do rapaz, deixando-a completamente distraída de sua missão inicial.


O apartamento de Oyamada é uma mistura de muitos itens de diversos hobbies e locais do mundo. De inúmeras culturas e com diferentes serventias, haviam ali estátuas indianas, lanternas orientais, action figures, dentre muitos outros itens. O anfitrião sana a curiosidade de sua inesperada visitante explicando-a: O seu irmão disse que aproveitaria a vida até que fizesse 30 anos, e por isso, acaba comprando tudo que se interessa para testar, sendo estes itens desde possíveis acessórios eróticos até decorações diversas. E como ele compra muitas coisas de muitos lugares, ele não pode lidar com tudo e os envia para a casa de Oyamada, como se fosse um depósito.

Aí está a graça: Toda semana, Oyamada recebe em sua casa inúmeras caixas, sempre contendo uma surpresa diferente. Torna-se uma diversão poder abri-las como se fossem presentes que você não tem ideia do que podem ser. Para exemplificar, ele abre uma das caixas e o destino guia a história para que esta contenha dentro bebidas alcoólicas caras - como já estavam ali, Oyamada convida Ozawa para beber um pouco com ele. Daí uma singela amizade nasce, e o dono da casa deixa as portas abertas para sua visitante, dizendo que poderia passar por ali sempre que quisesse.



O enredo

Enfim, aí estamos com nossa plot montado após um breve resumo do primeiro capítulo deste mangá. Como explicado logo adiante na obra, Bonnouji é um termo que relaciona-se a Templo da Tentação, um apelido dado ao apartamento de Oyamada por um amigo próximo seu. O que faz bem sentido, já que todos os itens que estão ali vieram de desejos do irmão do proprietário desse apartamento. Neste curto mangá, deparamo-nos com um slice of life que praticamente baseia-se na vida dos personagens principais passando ao tempo que em suas horas livres, eles encontram-se no Bonnouji para abrir novas caixas-surpresa, como uma pequena brincadeira.

Percebe-se a evolução das caixas abertas de acordo com a decoração do quarto, que a cada nova leva de caixas muda em algum aspecto e de alguma forma, ao tempo que vemos um leve e singelo desenvolvimento de personagens. O anime possui um pouco de drama, um pouco de romance e um pouco de comédia; todos em doses moderadas, de modo que você não consegue considerar o mangá sendo daquele gênero (com exceção de alguns pouquíssimos capítulos que puxam mais pra um desses lados), contudo, de maneira geral, o foco dele é o dia a dia dos personagens, vistos através de um ponto de encontro que eles tem em seus horários livres.

Dentre todos os mangás que pude ler até agora, nunca achei um com um clima mais light que “Bonnouji”. Este não é um mangá para você ler caso procure uma trama incrível, um vilão cruel que quer acabar com os planos dos protagonistas, personagens que evoluem de acordo com o passar dos acontecimentos dos capítulos. Não. "Bonnouji" é um mangá que não possui antagonistas, é uma leitura em que você pode simplesmente relaxar e curtir o que acontece, como se você fosse um amigo invisível e intangível da cena que está passando em sua frente. Caso esta obra ganhasse uma adaptação animada para televisão, seria o tipo de anime que eu aconselharia veementemente para que fosse assistido semanalmente, e não maratonado de uma vez só. Se é um fã deste tipo de história, vez ou outra, “Bonnouji' é feito para você.



Os personagens

Sendo uma história curta, a autora fez muito bem em não optar por uma gama de personagens exageradamente grande. De forma que os principais diálogos do mangá inteiro se dão em torno de quatro personagens na grande maioria das vezes. 

Michiyo Ozawa é nossa protagonista. Ela trabalha em uma empresa da cidade e recentemente passou por um fato que mudou os rumos de sua vida de maneira quase drástica. Com uma cara alegre e sempre sorridente, Ozawa é carismática e extremamente empolgada com o que está em frente de seus olhos naquele momento; da mesma forma, ela é espontânea e honesta consigo mesma, não conseguindo conter suas emoções de florescerem nos seus atos, gestos e expressões. Toda vez que acompanhava sua jornada diária eu acaba sentindo quase o meu próprio sentimento do dia: Nossa, como quero terminar logo o meu horário de expediente para poder ir fazer o que quero.


Zenji Oyamada é nosso protagonista. Diferente de Ozawa, ele quase sempre está em sua própria casa, uma vez que trabalha em home office pelo seu computador. Em contraste com as emoções saltadas de sua dupla, Zenji é calmo e contido, sendo muitas vezes cauteloso com o que fala e como fala, deixando de expressar suas reais intenções com certa frequência. O ar de tranquilidade que o personagem principal traz consigo é um belo contraste com o seu quarto. Analise comigo: Uma vez que ele é o dono do Bonnouji, um lugar cheio de itens das mais diferentes razões para estar ali, a sua personalidade influencia muito em como o ambiente se torna para aqueles que entram nele. Deste modo, a tranquilidade deste protagonista contrasta com a boa ambientação do Bonnouji para pessoas que vem de fora.


Ademais, temos nossos dois coadjuvantes desta simpática história. Shimamoto Hiroki, ou apenas Shimapon, é um amigo de infância de Oyamada que costuma visitá-lo com uma constância enorme. Este engraçado personagem diverte-se com as caixas enviadas para seu amigo, e fora ele mesmo quem apelidara o lugar inicialmente de Bonnouji. Extremamente viciado em mahjong, Shimapon tem um gênio carismático e sorridente, não se importando em conversar com qualquer pessoa que apareça por lá, muito embora mostre-se decepcionado caso ela diga não gostar ou não saber jogar mahjong. Do outro lado, encontramos Watanabe, uma das colegas de serviço de Ozawa com quem ela mais se dá bem. Nossa protagonista admira muito Watanabe, vendo-a sempre como alguém em quem você pode confiar para tomar decisões e extremamente dedicada ao serviço que lhe é dado; de forma recíproca, Watanabe admira muito Ozawa, pela sua personalidade carismática e pelo fato de todos poderem contar com ela no serviço. Em questão de calma e tranquilidade, o contraponto de Ozawa é Oyamada. Contudo, quando tratamos de uma pegada mais irônica e levemente mais ácida, o contraponto de nossa protagonista certamente é Watanabe.

Os personagens de Bonnouji são levemente estereotipados, mas eles estão longe de atingirem o grau de exagero que encontramos em outras obras. São personalidades críveis, que você dá o braço a torcer de que possam existir na vida real, o que dá um tom bem mais realista para as pequenas e divertidas situações pelas quais os personagens passam. E, caso já esteja se perguntando: Prefiro não comentar nada sobre o irmão de Oyamada nestas descrições, fica o mistério para quem quiser desbravar o curto mangá.




Impressões pessoais e o veredito

“Bonnouji” é uma obra de demografia Seinen, publicada pela Comic Flapper, uma revista que publica títulos de diversos gêneros, variando desde “Tonari no Seki-kun”, passando por “Vampire Hunter D”, até chegar a um título chamado “Vamos lá! (Bamora!)”, de futsal; dentre inúmeros outros que podem ser citados por já terem recebido adaptação para televisão ou cinema. É um mangá já finalizado, possuindo curtos três volumes que totalizam 36 capítulos, tendo sido lançado de abril de 2008 até outubro de 2012. Considerando o seu público alvo, não é um mangá aconselhável para menores de quinze anos, por conter em seu decorrer algumas cenas um pouco mais maduras vez ou outra.

Quando tratamos da arte do mangá, preciso ser bem sincero em dizer que ela não tem grandes detalhes, muito menos alguma excepcional habilidade. O traço de “Bonnouji” é simples e limpo, e como muitas vezes as cenas acontecem dentro de ambientes fechados, podemos ver que o cuidado com o background das mesmas não é tão grande, mas pelo menos consegue nutrir a necessidade de preenchimento do fundo de uma cena. O design dos personagens é muito do meu agrado; embora simples, a autora tem a habilidade mais do que suficiente para mostrar as emoções de cada um deles através de seus gestos e expressões faciais e corporais.

Me perguntar se gosto de “Bonnouji” nunca foi garantia de uma resposta imparcial. Este mangá é um de meus preferidos no gênero slice of life, e pelo fato de ser um título de poucos volumes, já o li mais de dez vezes no correr destes últimos anos. É um mangá com personagens cativantes vivendo uma vida comum com um tom de surpresa e curiosidade, uma obra leve que garante que não terá ela pipocando em sua mente após terminá-la, bem como é um mangá que carrega uma pequena e singela história, que é contada de forma tão lenta e sutil que você quase não vê passar. Até que você chega no final e diz: “Nossa, já acabou?”.

Fico por aqui desta vez, amigos.




Um grande abraço, e até a próxima!












**********

Comente com o Facebook:

3 comentários:

  1. @Tadashi, simpatizei com a história, e diria que parecido com o que você diz no trecho "Este não é um mangá para você ler caso procure uma trama incrível, (...) é um mangá que não possui antagonistas, é uma leitura em que você pode simplesmente relaxar e curtir o que acontece.", tenho o anime Kimi to Boku.
    Agora, a pergunta que não quer calar: tem em pt-br? Se sim, onde você o leu??

    Ah sim, tem um errinho no texto nessa parte -> "É um pedaço (slice) da (of) vida (vida)."

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Sennaffogo!

      Primeiramente, muito obrigado pelo comentário, que bom que lhe chamou a atenção de alguma forma. Sobre a comparação: Sim, realmente Kimi to Boku é outro bom exemplo de um anime que segue um tanto da mesma linha de pensamento. Barakamon também tem um pouco disso, e Silver Spoon também até possui a mesma aura, se for parar pra notar.

      Mil perdões sobre a falta de informações sobre onde li. Como Bonnouji é uma obra pequena e sem tanta visualização, as scans brasileiras nunca tiveram olhos para ela. Infelizmente as traduções que temos de scans brasileiras são bem limitadas quando comparamos com as em inglês. Li Bonnouji em inglês, não há nenhum termo técnico muito complexo e os diálogos são bem simples, caso o nível na língua não seja muito alto. O meu reader preferido é o Mangapark para estas situações, foi lá que o li, mas provavelmente deve constar também no Mangafox e no mangareader.

      Sobre o erro: Valeu! Hei de corrigir asap!

      Excluir
    2. De nada meu caro, sempre que possível estarei por aqui. =)

      Barakamon... preciso assistir isto 'asap'! xD. Toda a galera do Animecote gosta dele. Já Gin no Saji eu acho que vai demorar um pouco mais, mas é da Arakawa... então, se Deus me permitir, verei com certeza!

      Uma pena que não tenha em pt-br...=(
      Eu já não sou muito de ler scan, pois prefiro o impresso, mas sendo como Colégio Feminino Bijinzaka (por ser um mangá de 3 volumes), até pensei em lê-lo assim que tivesse um tempinho, contudo, estando em inglês a coisa já sai do radar. Pois tenho a premissa de que ler algo que seja de entretenimento tem que ser em minha língua-mãe. Anyway, valeu a dica Tadashi. o/

      Excluir

Copyright © 2016 Animecote , Todos os direitos reservados.
Design por INS